Sábado, 2 de Junho de 2012

Frígido sexo.



Um passo. Dois passos. Três passos de dança conjugados, intemporal e espacialmente. Numa valsa ritmada e vibrante, o par movimentava-se pelo espaço, qual campo magnético, atraindo todos as atenções, demonstrando uma conversão do sexo na arte da dança. Ela, com o palpitante peito desnudo, emanava sensualidade da sua pele morena enquanto, passiva, se deixava movimentar ao longo da dança tão bem treinada. Nada aqui era espontâneo, nascendo dum nada. Era sim, fruto do treino mecânico dum casal já tão frígido e de si tão colapsado. Eles, na sua mente, sabiam bem que eram melhores actores que dançarinos. A questão era fazer crer a um público fervoroso o magnetismo sexual que os envolvia, sendo isto uma mera ilusão que não constituia em si mais do que uma busca por um prémio.
E o público, que era um nada repleto de insectos voadores e atónitos objectos de cabeceira, rodeavam aquela espaço escondido no linho dos lençóis e no calor dos cobertores, na qual um ser feminino respirava ofegante, num falso prazer postiço. O ser masculino penetrava-a incessantemente, louco por atingir a catarse sexual, enquanto na sua mente ondulavam memórias com a amante e outras que tais. 
No fundo, ambos se iludiam naquela ritmada valsa que, de valsa, apenas tem a rigidez mental. Omitiam o não desejo por vagos gemidos, respirações entrecortadas e palavras atiradas ao ar, todas de cariz postiço que ficavam a vaguear na atmosfera. O mais curioso é que, o publico deixavam de ser os objectos de cabeceira e os próprios insectos, mas eles mesmos. Eles eram os actores e a audiência: ambos na mesma cama, num momento efémero no qual o tempo, ainda assim, tende para um infinito.
João de Lalanda Frazão

Domingo, 20 de Maio de 2012

Movimentos sociais.


Dia após dia, hora após hora, esta sociedade envelhece. Torna-se idosa, não demograficamente, mas socialmente. O espírito que habita cada um de nós esmorece e, passivamente, deixamo-nos levar pelos falsos ditados que nos monopolizam. Somos moldados desde que nascemos pelo Estado, pela política, pelas cadeias sociais, televisivas, económicas, quiçá, entidades importantes de modo a metamorfosearmo-nos em massas populacionais acríticas e amorfas que não desenvolvem a crítica racional.
E assim é Portugal há séculos de história. Vivemos à sombra da vanguarda, numa constante cópia dos modelos e estéticas europeias. Vivemos acríticamente, numa sociedade pedante corrompida pela falta de vontade, pela falta de saber, pela falta de tudo. Massas moldáveis às mãos das entidades de poder? É necessário a rejeição a esta forma de vida. É necessário uma revolução ideológica que desencadeie toda uma nova forma de pensar pro-activa! Uma revolução literária, artística, política, económica, social. Uma revolução na nossa essência enquanto povo para deixarmos de viver debaixo das cortinas das super-potências e alcançarmos um novo esplendor. E quando refiro o esplendor, não menciono números e contas económicas apenas, sendo isso tão superficial e restritivo: falo duma vanguarda cultural e de formas de vida que influenciem positivamente as massas portuguesas. É parar de viver à sombra de acontecimento velhacos e antiquados que aconteceram há 6 séculos.
E, infelizmente, todos nós vivemos numa ditadura subconsciente que nenhum de nós vê, tão subtil que ela é. Qualquer participante desta sociedade ocidental é bombardeado a todo o momento com subtis missivas que moldam o nosso inconsciente e a nossa forma de pensar. Tornamo-nos protótipos do estado e isso, com a globalização, é um processo irreversível. Mas se somos protótipos bons ou maus, isso depende de nós e da nossa capacidade crítica e racional. 
Subtilmente, a nossa sociedade ainda se encontra fortemente corrompida pelos velhos valores salazaristas que nos atrasam social e culturalmente. Na primeira metade do século, eram poucos os que tinham acesso à educação, sendo fácil moldar as massas. Agora, a maioria tem acesso à mesma mas poucos usufruem dela, não desenvolvendo a capacidade crítica e de escolha acertado, sendo ainda mais fácil moldar massas acríticas e pedantes que descartam a sua racionalidade.
É necessário, urgente quase, impôr um novo modo de pensar e de viver que fomente o desenvolvimento crítico, levantarmo-nos da sarjeta em que vivemos e abrir os olhos duma vez por todas. Há que mudar a carapaça desta nação secular e erguer um novo modelo! Por uma revolução desta fossa!
João de Lalanda Frazão

Sábado, 5 de Maio de 2012

Especulações.


O interior da minha mente não é mais que um descortinar de vagos pensamentos e lunáticas cores. Afloram-se onduladas palavras por entre o meu olhar e tudo se torna vago e difuso (talvez não na propria natureza da realidade, mas na minha interacção com ela).
Tento não reflectir muito e, diletantemente, especular sobre o casual e o vulgar, restringindo-me ao quotidiano, por si próprio tão aliciante quanto exaustivo. Fala-se do café, da metereologia, do cigarro, da aula, da pessoa, do terreno válido e fácil; do simples que por si só é complexo.
E assim verifica-se um colapso interior entre a natureza crítica revolucionária e a passividade aliada aos objectos do meu dia. Aqui estamos nós, em constantes batalhas interiores fugindo dos problemas e da natureza vaga das discussões. 
Aqui estamos nós, num constante refúgio...
João de Lalanda Frazão